Ao caro leitor que vem através desse compêndio buscar as histórias mais heroicas, inspiradoras, dramáticas ou românticas...devo-lhe uma palavra: perdão.
Não te assustes com o meu tão repentino pedido, pois sei que este é um livro de contos e que sua curiosidade sobre as maravilhas do continente de Arkus lhe fizeram desprender um bocado de suas preciosas moedas por esta obra — ou cópias não oficialmente redigidas por um escriba profissional deste manuscrito. Mas ainda assim em meu âmago sinto que devo pedir-lhes este indulto, pois fui contratado para catalogar contos em um compêndio para um nobre local e ao final de minha viagem me vi envolto em minha própria aventura.
Dados os pedidos iniciais de perdão — ao qual acredito que minhas futuras anotações ao longe deste compêndio me justificarão — tenho que contextualizar o início de tudo.
No ano de 3126 do calendário thorndoriano me encontrava na biblioteca do senhor de Pranu, cidade portuária situada no sudeste da Província de Sien, no Reino de Tertish. Concentrado, analisava antigos registros nobiliárquicos de meu mecenas para continuar meus estudos sobre sua casa. Lembro-me vividamente que passava a página do décimo segundo membro da linhagem quando a vela posta em meu castiçal sofreu uma oscilação na chama que propagava. Virei-me para ver quem chegava e era meu senhor, o príncipe sieniti e o governador provinçal. Ao ver as figuras nobres que se aproximavam prontamente me levantei e prestei-lhes reverência, as figuras então retribuíram o gesto em sinal de aceitação.
— Veja, governador — pronunciara o senhor pranute enquanto apontava com a mão aberta para minha pessoa. — Este é meu servo Halklent, historiador de minha casa e responsável por cuidar de minha biblioteca pessoal.
— Saudações, meu senhor — apresentei-me novamente com um leve meneio de cabeça.
— Ele é jovem demais para as habilidades que me dissera, Dasit.
— O que muito me agrada, meu senhor. Pois se jovem suas habilidades já lhe destacam, o que a experiência que lhe permitirá ter não pode desenvolver?
— Não estou devidamente convencido de sua capacidade.
— Ora, meu senhor! — exclamou o senhor pranute enquanto abria os braços. — Que bibliotecário experiente se lançaria em tão grande obra sem possuir o vigor para tal? Ademais, estamos enrolando demais para falar ao jovem Halklent o trabalho em questão.
— Concordo, meu pai — interrompeu uma voz jovial, ainda em formação por causa da idade. Era do príncipe sieniti, que se virou para o pai tentando esboçar a feição mais determinada e convicta que aquele rosto desprovido de pelos poderia lhe dar. — Apesar de considerar louvável a sua preocupação com o ofício eu devo salientar que muito li a respeito de Halklent e suas obras muito me agradaram quando as tive em mão. Sua juventude encarnada em sua escrita vívida é encantadora e tanto as moças como os rapazes falam de suas histórias.
— Pois bem — assentiu o líder sieniti. — Se é o que queres, assim será.
— Perdão, meus senhores — interrompi com minha mais "sincera" face de servidão. Meus olhos nada deviam ao mais adorável gatinho da corte. — Todo este suspense em torno de minha próxima tarefa me faz crer que a mesma pode ser... altamente complexa.
— Não, não é. Pelo menos não para você, imagino — respondeu prontamente o príncipe. — O trabalho que desejo passar por suas mãos, meu caro escritor, é realizar um compêndio de contos.
— Entendo — falei. — Então vossa nobreza tem aspirações à contista.
— Não, meu caro. Perdoe-me por expressar-me mal. Não são meus projetos de contos que quero compilar, mas contos reais do continente arkiano — lembro-me que dessa vez a minha feição de confusão não passou despercebida.
— Meu senhor, deixe-me explicar de maneira clara para o rapaz — interrompeu o líder pranute. — Há pouco mais de um mês o bibliotecário dos sienitis trabalhava no estudo da casa nobiliárquica, assim como você faz para minha casa. Nesses estudos o homem descobriu que a casa sieniti teve um membro que poderia descender de Sodral, O Quebra Muralhas. Creio que já deve ter ouvido falar dele.
— De fato.
— Pois bem — começou o líder sieniti. — Tal membro teria sido um antepassado de oitavo ou nono grau do nosso líder sieniti.
— Uma honra imensa ter tão ilustre campeão em sua linhagem.
— De fato, porém se soubesse que me traria tamanha despesa talvez eu mudasse de ideia — respondeu o governador com severidade.
— Não é despesa aprender sobre nossos antepassados, meu pai. É um privilégio.
— Privilégio este que só roubou sua atenção quando descobriu que havia um campeão como um possível antepassado seu, do qual poderia utilizar de pretexto conquistar a princesa kassádina, que é muito ávida a histórias dos campeões.— Ao ouvir estas palavras o rosto do príncipe enrubesceu e então ele baixou a cabeça, mostrando que o seu pai estava certo. — Mas não o julgo em fazer loucuras de amor, só em quanto essas loucuras podem me custar.
— Mediante o que me fora exposto, devo crer que exigirá uma pesquisa mais aprofundada do tema, meu senhor?
— Certamente, rapaz — respondeu o líder de Sien, deixando escapar um suspiro de conformação. — Uma viagem.
— Até a terra do herói — completei. Recordo de ter ficado empolgado na ocasião, pois seria a primeira vez que iria para o continente. — De qual povo nosso herói fazia parte mesmo? Se bem me lembro ele era do nordeste do continente, então arrisco ser lazireu.
— Não, meu caro. Você se precipitou em achar que seria tão simples — comentou o líder sieniti.
— Precipitei, meu senhor? Então não é a terra do herói que irei?
— Até a terra do herói "também" — falou com forte entonação.
Ao terminar da sua fala senti meus olhos se arregalarem e meu queixo cair. Uma pequena vertigem passou por meu corpo e lembro-me de buscar apoio na escrivaninha atrás de mim, caso contrário tombaria no chão como morto.
Pouparei o leitor de tamanha descrição sobre o resto da conversa que tive com o meu mecenas e suas autoridades superiores. Seja por ser um relato longo e extenso sobre os detalhes da viagem, seja por não me lembrar ao certo deles por ainda estar extasiado com o projeto proposto. Fato é que a mera existência da presente obra que lês neste instante prova que eu aceitei a tarefa e, do fim daquele dia até o início do mês seguinte eu teria que planejar toda a viagem, assim como buscar informação sobre os povos. Um trabalho árduo e penoso, porém que me enchera de expectativas para descobrir que tipo de histórias eu encontraria.
Pois bem, os dias se passaram e enquanto eu fazia meu plano de viagem comecei a questionar os motivos do líder sieniti prestar-se aos desígnios de um jovem mancebo apaixonado. A resposta foi-me dada pelo meu colega de ofício, o bibliotecário dos sieniti. Em determinado dia eu precisei me dirigir até a casa do líder para que o mesmo me emitisse uma promissória que deveria ser entregue nas estações da sua companhia em determinadas cidades. Neste meio tempo encontrei-me novamente com o líder da província e este me guiou até o seu acervo de livros e no meio daquele montante quase interminável de papiros, pergaminhos, tabuletas e livros, um senhor se encontrava em uma escrivaninha como a minha, com ferramentas como as minhas, trabalhando como eu. Neste momento tremi, pois se o mesmo trabalha com as mesmas ferramentas que as minhas em um local tão mais suntuoso que o meu, então que teria eu de esperar de quem provém tais instalações? Ao surgir de tal pensamento me perguntei se estava agindo com sabedoria em aceitar tal tarefa. Devidamente apresentado ao bibliotecário, ao qual me fez somente uma leve mesura de cabeça enquanto enfiava seus olhos nos livros novamente, o líder explicou-me como funcionaria a promissória e em quais locais eu poderia utilizá-la para sacar as moedas necessárias para despesas da viagem. A promissória não era relativamente baixa, devo admitir, com o líder sieniti garantindo que seria o suficiente para poder instalar-me em hospedagens "dignas de um bibliotecário". Neste momento olhei de relance para a escrivaninha do meu confrade e percebi que o mesmo olhara de relance para nós. Ele sabia que eu estava encrencado.
Quando enfim o líder se despedira para seus afazeres me dirigi até o velho bibliotecário.
— Aparentemente tem muito trabalho a ser feito, confrade. — Como se eu fosse uma voz que ecoasse distante pela biblioteca, o senhor nem se dera ao trabalho de levantar a cabeça para me ver.
— Sim, meu jovem, de fato tenho. E aparentemente você também terá.
— Certamente, e por essa razão vim até aqui, pois preciso de um conselho que somente alguém que sabe o labor deste trabalho pode me dar.
Contrariando as minhas expectativas o senhor finalmente levantou os olhos em minha direção e sua feição dizia que ele não era nada afável. Mas assim como os nobres a plebe também gosta de elogios, basta que você saiba lê-los corretamente.
— O que você quer de mim?
— Um mero conselho que ajude o meu trabalho.
— Meus conselhos são geralmente precisos. Não posso me desprender a dá-los para meus concorrentes, pois já me roubaste um trabalho — dissera o senhor, levantando levemente as sobrancelhas enquanto inclinava o rosto em sinal de observação.
— Ora, meu amigo, eu até entendo que possa achar que tomei seu lugar, mas veja bem — então deia a volta pela escrivaninha e passei para o seu lado, estendendo a promissória ao lado do livro que lia. Olhei para a porta como se para observar se alguém vinha, o que chamou a atenção do velho. — Olhe bem para esse valor, amigo. Nós dois sabemos que este trabalho pode pagar muito bem, mas se ele de fato quisesse pagar tanto quanto o trabalho pede não me daria este valor de promissória.
O bibliotecário olhou o valor de relance, tentando não esboçar reação, mas nós dois sabíamos que aquele valor tendia a ser bastante... "irrisório", para dizer o mínimo.
— De fato, um valor bastante irrisório para uma viagem que tende a ser bem aventuresca.
— Assim é! — falei, sentando-me na beirada da escrivaninha e pegando a promissória enquanto balançava a cabeça negativamente. — Mas o que posso fazer? Meu mecenas me indicou para o cargo e pegaria mal eu simplesmente rejeitar uma indicação de um barão para seu líder provençal. E pensar que a este momento eu poderia estar numa escrivaninha como a sua, utilizando estilógrafos como estes.
— Então você também utiliza um material como este? — perguntou com curiosidade o senhor, que agora não mais prestava tanta atenção em seu trabalho.
— Sim! Como não!? — exclamei. — O trabalho de cuidar de registros nobiliárquicos é deveras importante para que se tenha o melhor para quem o faz.
— Concordo. Um trabalho tão minucioso quanto a organização de registros históricos não pode ser feito de qualquer jeito. O apreço pelos registros é mostrado em como você cuida deles.
— Exatamente. Uma pena que meu mecenas fique sem alguém para cuidar de minha obra enquanto estou fora.
— Ele ainda não encontrou ninguém?
— Não. Foi tudo muito repentino — levantei—me então. — Enfim, devo me despedir. O tempo urge.
Com pressa peguei a promissória, coloquei em minha bolsa e comecei a dirigir-me a passos largos em direção à porta. Mal havia chegado no décimo passo quando ouvi uma voz alta e nítida, cheia de força.
— Espere um minuto, confrade. — Sorri. — Acho que podemos nos ajudar mutuamente. Você dizia que precisava de um conselho?
Durante o restante da manhã conversamos como se fôssemos os mais íntimos irmãos e no fim do dia estava em casa com o que queria, junto ao que não queria.
Agora que sabia o motivo do líder sieniti render-se aos desejos do filho minhas dúvidas foram sanadas e meu planejamento agora envolvia um plano paralelo para caso o rumo de minha viagem se perdesse um pouco.
Os dias se passaram e então a fatídica data da viagem chegou. Era o verão do mesmo ano quando acordei em meu quarto e revisei todos os meus pertences para a viagem. Materiais para escrita, promissória, planejamento de viagem, dois livros em branco, três mudas de roupa, um par de botas e pequenos frascos contendo remédios — nunca se sabe o que esperar de um local nunca antes pisado por seus pés. O alimento seria comprado durante a viagem, até porque não fazia sentido levar alimento conservado agora.
Estava prestes a sair da casa do líder pranute quando senti um leve formigar no estômago e meus joelhos começaram a ficar trêmulos. Uma chuva de eventuais problemas que aconteceriam na viagem me tomou de assalto. E se a promissória se perdesse? Ou fosse roubada? E as línguas faladas no continente? Quantas delas eu conhecia e quantas seriam? Quanto tempo ficaria longe dos meus afazeres e da minha cidade natal? Por um momento quase pensei em desistir e voltar para a biblioteca, mas ao mesmo tempo pensei nas glórias que me dariam. Talvez com este livro de contos eu pudesse subir na cadeia de poder, quem sabe servindo ao rei ou a um dos nobres mais prósperos. A possibilidade de uma vida mais estável moveu meus pés presos ao medo, como faz com a maioria das pessoas que buscam reservas monetárias para uma vida mais longa.
Então despedi-me de meu senhor e entrei na carruagem. Uma mistura de emoções me tomou durante o caminho, a ponto de não conseguir descrever a cidade ou as ruas. Hoje vejo que não era uma questão de emoção, mas que os detalhes encontrados na vida convencional só podem ser notados por aqueles que não a tratam como convencional. A carruagem passou pela cidade e seguiu em direção ao porto.
A maresia vinda do oceano que separava o continente de Zanir do continente de Arkus trazia um "cheiro salgado", por mais estranho que seja juntar gosto com odor não consigo imaginar uma descrição melhor. O sol do meia da manhã banhava-nos com seus feixes de luz e aquecia a cidade, dando o tom vívido e iluminado que somente uma cidade portuária na costa poderia dar. Turistas iam e vinham por toda parte, trazendo dinheiro e levando mercadorias. Alguns gastavam o seu precioso ouro nos restaurantes mais conceituados — leia caro — da cidade e transformavam o local em um ninho de gralhas com a junção de dezenas de idiomas falados ao mesmo tempo. Claro que o idioma local era o principal, mas vez ou outra você escuta alguém falando numa das línguas arkianas.
Aproximando-se do porto ficara ainda mais evidente a grandiosidade de minha cidade natal. Grandiosidade esta que podia ser vista no número de embarcações atracadas em nosso cais. "Porto é a porta no mar e quanto maior a porta maior quem passa por ela", é como dizem os cidadãos daqui. Há um grande depósito ao lado do cais, na qual uma grande quantidade de mercadorias entram e saem da nossa alfândega. A poucos metros deste depósito há uma feira de comidas e venda de pequenos produtos. Mas divago, então voltemos para o porto onde lembro-me de ter chegado com expectativas sobre a minha embarcação.
O líder pranute encarregara um dos seus criados mais leais a providenciar um barco que aceitasse um tripulante e fosse para Kinkardine, nos territóritos thorn'dorsianos. Por ser a cidade mais próxima era comum que fosse também a primeira e dessa forma eu poderia começar a jornada de maneira mais próxima do que conheço, visto o continente Zanir ter sido descoberto e povoado pelos thorn'dorsianos do passado. Com a descrição do barco em mãos saí da carruagem, peguei minha mala e me lancei para o cais, em busca de minha saída daquele local. O mero fato de andar no meio de uma multidão tão grande com uma mala já se mostrou bastante complicado, mas eu não preciso descrever as pisadas, empurrões e "bendizeres" que foram trocados entre mim e meus compatriotas. A procura se mostrou levemente demorada, pois especialmente naquele dia o porto estava lotado, visto receber encomendas de uma companhia formada por quatro galeões e, se você já viu alguma grande embarcação, sabe que onde um galeão para com especiarias o local enche de pessoas.
Passado o seguinte tumulto finalmente encontrara o "objeto que flutua" sobre a qual me descrevera o criado. Digo isto pois me perguntei se era algum tipo de teste ou se realmente o criado descrevera o barco certo, visto que a discrepância entre o bilhete e a realidade era quase onírica.
— Bom dia, senhor — falara um marujo zanireu, provavelmente do Norte, enquanto aproximava-se de mim. — O senhor é Halklent, bibliotecário do mestre Pranute? Um dos seus servos viera até nós para encomendar um local em meu navio.
— Sim. — respondi prontamente, disfarçando a feição de surpresa sobre a discrepância comentada. — Este é o navio conhecido como "O Desafiante"?
— Bom, enquanto aquele nome estiver acima da água podemos dizer que este é o nome do navio. — rira ao terminar de falar. Lembro-me como hoje, ele riu. Então pegou a minha mala, virou-se e seguiu pela prancha em direção ao convés.
Ainda desacreditado, comecei o meu caminho em direção a embarcação com dificuldade.
Como a maioria dos mercadores zanireus que trabalhavam neste porto, o barco do nosso marujo era do tipo caravela. Era feita de uma maneira negra, provavelmente vinda do norte do continente, onde existem florestas que centenas de anos atrás foram banhadas por uma magia esquecida. Haviam dois mastros que sustentavam duas grandes velas triangulares, onde em cada uma estava bordado o escudo da companhia à qual os marinheiros faziam parte. A embarcação devia ter seus 25/30 metros de comprimento e era pintada de rútilo com tons em herbal e crisântemo.
Calma! Antes que deixe seus julgamentos transbordarem, dê-me uma chance de defesa. O barco ou os marinheiros nunca foram uma questão para mim, mas a atividade da mesma. Aquele não era um barco comum de tripulantes, mas um barco mercantil e em um barco mercantil não há espaço para um bibliotecário escrever e descrever com a calma e balanço necessário, podendo a qualquer momento explodir uma bola de canhão no convés ou sermos interceptados por piratas. Não para menos, os dois primeiros dias da viagem foram de enjoo com o balanço causado pelas ondas enquanto eu comia o jantar depois de vomitar o almoço.
No terceiro dia de viagem — que durariam bons cinco dias — saí de meu cubículo ao lado do barril de tomates para tomar um pouco de ar fresco. Estava especialmente calmo neste dia, mas eu me sentia muito fraco. Era uma situação deveras desgastante ir ao convés, onde os marujos iam de um lado para outro e não havia local reservado o suficiente para que se pusesse tomar um ar fresco sem incômodo. Ao abrir a porta que dava para o convés, esbarrei com o capitão, que esboçou o seu melhor sorriso ao me ver mesmo sabendo que seu desprezo por minha pessoa era mútuo.
— Senhor Halklent, veio ao convés em busca de algo? Ainda está enjoado?
— Busco um pouco de ar, senhor Svale. Sinto-me ainda enojado com este navio.
— O senhor quis dizer enjoado? — vi quando seus olhos quiseram semicerrar, mas prontamente foram controlados.
— Claro que sim, capitão. Não há motivos para desmerecer sua barca. É uma ótima caravela mercantil e deve se orgulhar disso, mas temo que o servo do senhor pranute tenha se enganado sobre as reais condições dessa viagem.
— Não consegue espaço para escrita, bibliotecário? Podemos achar um local para você, quem sabe um local mais espaçoso. — Então terminara de falar com um sorriso. — Mas se me der licença, o mar está especialmente calmo.
Antes mesmo que me fosse possível abrir passagem o capitão do navio entrou no convés inferior, quase me derrubando. Tentando abafar o máximo possível o meu praguejar contra o sujeito eu finalmente saí daquela prisão de madeira para tentar dar alguns passos em busca do ar puro.
Quando finalmente saí estavam os marujos fazendo os seus trabalhos. O imediato estava no timão, um observador fazia a análise do horizonte com uma luneta e outros iam e viam puxando cordas e certificando-se de que tudo estava devidamente protegido e amarrado. Haviam alguns barris no convés principal, barris estes que continham especiarias e que poderiam muito bem ser guardadas no convés inferior se o mesmo não estivesse completamente lotado. Em resumo, aquele barco estava lento, pesado e somente por graça do destino que não fomos encontrados por piratas durante o caminho.
— Só pode ser brincadeira — disse baixinho, deixando escapar um pouco da minha frustração enquanto tentava recobrar um pouco de ar, mas logo em seguida vomitando na água novamente. — Antes o mar terminasse logo de nos tragar, em vez de nos matar aos poucos.
— O que você disse? — falou uma voz inesperada ao meu lado quando eu deixei escapar minhas lamúrias. O susto fora tamanho que nada pude fazer a não ser encarar o sujeito enquanto sentia o sangue fugir de meu rosto. — Não provoque o mar.
— O quê?
— Não, provoque, o mar. — Foi então que percebi que o sujeito era thorn'doriano, pois apesar de haver muita superstição entre os que se alçam ao mar, somente um descendente dos thorn'dors faria aquele símbolo e levaria consigo o famoso cordão de pendentes. — Está especialmente calmo hoje e eu não gostaria de retribuir gratidão com ingratidão, não quando estamos em seus domínios.
Quando abrira a boca para perguntar o que eu queria o sujeito se virou e seguiu de volta para o seu trabalho.
Durante o restante da viagem não consegui começar uma conversa com ele. Muito disso se dá pelo fato de que ele estava certo até determinado ponto, pois naquele mesmo dia fomos pegos em vento contrário e mar resolveu voltar-se contra mim. Por um instante achei que ele poderia me lançar do barco na expectativa de que o tempo melhorasse, mas não foi para tanto.
Quando enfim o barco atracou no cais de Kinkardine eu pude finalmente pisar em terra firme e uma das primeiras coisas que iria fazer era retirar o dinheiro da minha estadia na cidade e da minha viagem para o próximo destino. A promissória mostrou-se bastante útil, apesar do seu baixo valor. Com o dinheiro na bolsa e a mala em mãos, saí do banco e fui em direção a um restaurante local. Durante quase uma semana senti-me fraco e cansado por causa do trajeto e mostrou-se altamente necessária um descanso.
Entrei na taverna "Trombone Bebâdo" e enfim pude sair do sol castigador e me abrigar em local frio. O lugar estava repleto de pessoas e os garçons e garçonetes iam e vinham com as canecas de cerveja. Observei o ambiente em busca de um local onde pudesse descansar, mas o ambiente estava completamente lotado, a não ser por uma pequena mesinha ao lado da saída onde se encontrava um sujeito deitado sobre o próprio braço e babando sobre o seu prato. A visão daquele homem completamente embriagado me instigou a sair do local e procurar algo mais...decente. Mas o cansaço enuvia a mente do homem, fazendo-o enxergar beleza onde há imundície. Não foi diferente para mim e por mais que a taverna estivesse cheia e a balburdia tomasse conta, aquela cadeira vazia ao lado da mesa era tão aconchegante quanto deitar-se em uma nuvem.
Segui em direção a cadeira e mal dera tempo de encostar as minhas costas no encosto de madeira maciça quando percebi que um sujeito tinha se assentado na cadeira a minha frente. Ele carregava um prato de comida muito bonita e o cheiro a deixava ainda mais atraente. Na sua mão havia uma caneca de cerveja e, por mais que eu seja do tipo que não tolera fermentados, devo salientar que na época não o era e aquela caneca cheia estava muito atraente.
— Esqueça o que eu digo — falara o homem a minha frente. — O mar cobra até fora dos seus domínios. — E foi aí que saí daquele transe e percebi que o sujeito a minha frente era o marujo thorn'doriano.
— Eu não tenho culpa se o mar estava revolto, amigo. Fora a minha primeira viagem para o continente e mal tive tempo de comer.
— Que fora a sua primeira viagem eu percebi. Você contaminou meio mar com as suas entranhas.
— Éeeeeeee! — afirmou o bêbado entre nós. Olhamos para ele e depois demos de ombro.
O que quero dizer, amigo.
— Não sou seu amigo.
— Mas também não é um desconhecido. Este é um cinto de pendente? — disse apontando com os olhos para o cinto que pendia atravessado no seu ombro.
— Por quê a pergunta?
— Porque estou em uma missão de catalogar histórias importantes e creio que a história que poderia simbolizar este povo pode ser contada por alguém que conhece o mar como os seus antepassados o conhecem.
— Se está em busca de histórias deve ir até as bibliotecas, os livros têm muito a contar.
— Temo que nenhum deles possa me dar os detalhes que busco.
— Tão pouco eu. — O marujo então se levantara de bate e pronto, virou a caneca de cerveja e ainda com o prato em mãos fora até o balcão e o entregou.
Na minha primeira tentativa de extrair informações desse povo quase fui escorraçado por um marujo. Temo que talvez eu tenha sido muito abrupto em minha abordagem. "Pelo visto será mais difícil do que normalmente deveria ser".
"Com a abordagem certa o interrogatório vira uma fofoca", essa é uma frase que aprendi ainda menino, vendo meus pais administrarem a taverna em minha cidade natal. "Faça o cliente comprar a ideia sem que ele perceba que está despendendo o ouro em sua sacola, Halklent. Quando enfim a conversa acabar, ele estará satisfeito por ter descoberto as notícias do dia e saído com o estômago cheio de guisado."
...
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