Com um tinido o sino tocou ao abrir da porta, anunciando que entrara mais um cliente em potencial. A loja era exatamente como eu havia pensado. Pincéis de todos os tipos, canetas de diversos materiais, tintas das melhores qualidades e livros em branco esperando para serem preenchidos. Sorrindo de um lado ao outro me vi perdido em um mundo de infindas possibilidades. Então a avistei.
No canto da sala, por detrás do balcão uma jovem mulher estava ajustando os materiais que mostrara a outro cliente. Saltitando me dirigi em direção a ela quando nossos olhos se encontraram. Com um caloroso aceno em sua direção parei de frente ao balcão de madeira e vidro.
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-Por favor, poderia me mostrar aquela caneta ponta de pena 42, por obséquio?
-Boa tarde?
-Ah! Perdoe-me. Boa tarde senhorita. Poderia me mostrar aquela caneta ponta de pena 42, por obséquio?
-Receio que não, senhor. Aquela caneta é especial e só tenho ordens para vendê-la somente a um cliente específico.
-Não se preocupe, senhorita – falei mais para mim mesmo do que para ela. – Posso cobrir qualquer proposta de reserva que tenha sido feita.
-Ela não foi reservada.
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Durante alguns segundos paralisei, observando a atendente com a intenção de captar alguma informação intrínseca presente, mas aparentemente era isto mesmo que eu tinha ouvido. “Eu quero um produto que não está reservado nem em falta, mas que me está sendo negado”, repeti para mim mesmo em pensamento, como se para digerir informação tão insólita.
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-Por favor, confirme se é isto mesmo que eu entendi: há um produto em exposição nesta loja. Tal produto não está reservado e mesmo assim não pode ser vendido?
-Eu não disse que não pode ser vendido – disse a atendente enquanto fechava a porta do local em que guardara os produtos. – Disse que não posso vender a não ser para um tipo específico de cliente.
-Ora, isto não faz o menor sentido! – percebendo a elevação em minha voz respirei fundo e então deixei o ar escapar. – Tudo bem, não quero entrar no mérito do motivo para tal pensamento. Então deixe-me lhe questionar uma vez mais: quem deveria ser este tipo de cliente que a senhora tem permissão para vender uma das melhores canetas pontas de pena do mercado?
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Com um aceno com a mão ela me pediu para inclinar-me para a frente, virando meu ouvido em sua direção. Estarrecido com a pedida senti os olhares de outros clientes em nossa direção. Para os que viam a cena pareceria uma carícia entre amantes. Mas era somente uma atendente contando em sussurros o tipo de cliente para quem ela vende um produto.
Contado o segredo refiz minha compostura e novamente olhei para a mulher a minha frente. Ela estava de olhos fechados e rosto sereno, a quietude fazia de sua face uma morada e o sentimento de certeza no que cria me deixava ainda mais estupefato.
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-Então a senhorita só vende para pessoas com boa caligrafia?
-Exatamente – reafirmou com convicção. – Uma caneta profissional deve estar nas mãos somente dos profissionais.
-E o que lhe faz pensar que não tenho uma boa caligrafia, madame?!
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Então com o dedo em riste a atendente apontou para o crachá em meu terno. Lá estava meu nome e minha profissão: médico.
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