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Gio sabia que a passarela a levaria até a fortaleza de Elzevir, mas não imaginou que seria do modo que aconteceu. Mal deu dez passos e uma luz a ofuscou fazendo-a piscar para, no momento seguinte, estar diante dos portões do Domo.
— Caramba! Isso foi rápido. — Viu o imenso portão se abrir para ela e passou pela fresta assim que esta surgiu. Estava em terreno conhecido e foi com alívio que viu Elzevir caminhando para recebê-la vestido como um distinto cavalheiro vitoriano que poderia passar mais desapercebido se sua elegante calça de tweed[1] não fosse acompanhada de um berrante colete de veludo púrpura de onde uma corrente dourada de relógio se balançava cheia de pequenos barangandãs extremamente sonoros. Não pode deixar de escapar um sorriso ao reencontrar aquele que já lhe parecia um caro amigo.
— Giovanna! Espero que a passagem que eu e Grisial preparamos não tenha lhe assustado — Deu uma risada e tocou na ponta do nariz dela. — Estávamos preocupados com o Haechi[2].
— Haechi? — Gio estranhou o termo e ele a conduziu até um estreito vitral que se erguia quase tocando uma das cúpulas da nave e deixava a luz do dia entrar como um lindo feixe multicolorido. Dali tinham a vista dos arredores onde campinas de grama alta e delicada ondulavam misturadas a flores de pétalas largas em tons que iam do amarelo ao laranja. Inclinou seu rosto até ficar próximo ao dela e apontou para um ponto no bucólico ambiente.
— Ali — murmurou quase como se estivesse segredar algo em seu ouvido. — Olhe com atenção.
Gio seguiu com os olhos para onde o seu anfitrião apontava e, de início, não conseguiu ver nada, mas logo percebeu que, entre a vegetação delicada e volumosa, algo se ocultava, movendo-se com elegância. Tinha um porte maior que um grande cão e menor que um tigre, com movimentos definitivamente felinos e uma bela juba branca. Notou que uma vez que conseguia ver algumas partes, aos poucos o restante começou a tornar-se visível, revelando um ser alvo, com corpo musculoso, recoberto de escamas peroladas e uma calda leonina. Sua cabeça elevou-se o suficiente para ver uma expressão meio felina, meio canina coroada por um único chifre curto e levemente encurvado para trás que surgia a partir de sua testa. Nesse momento um tinido minúsculo soou e o ser continuou a caminhar encoberto pela volumosa relva. À medida que se movia e a luz solar incidia sobre seu corpo, as próprias escamas e a juba a refletiam, produzindo uma curiosa invisibilidade sobre ele.
— Ah... — Ficou encantada com a beleza da criatura, embora pudesse ser um tanto intimidadora para ser vista de perto. Após alguns segundos notou que lhe parecia familiar de alguma maneira. — Eu já o vi… — murmurou.
— Deve estar se referindo ao norigae de Su Won. Sim, isso mesmo. Aquele lindo pingente de jade branco é esse espetacular ser. O Guardião não tem fortalezas, mas tem um louvável acompanhante além de sua poderosa espada. Eu tinha certeza de que deixaria seu Haechi para atrás a fim de nos vigiar. Felizmente eu imaginei que faria isto e criamos uma passagem entre a fortaleza de Grisial e a minha com o intuito de que você não tivesse de ser encontrada agora. — Caminharam para o interior da fortaleza indo na direção de uma das bibliotecas internas. — Veja, um Haechi é um ser mitológico muito justo e, certamente, perceberia sua pureza, mas este não é o Haechi das lendas. Este é apenas um ser criado por Su Won e sua função é apenas encontrar aqueles que ele busca. Embora nunca o tenha visto sendo injusto, não posso garantir que não esteja contaminado pelas crenças de Su Won.
— De que Poliphilo é culpado e deste modo todos os que estão ao seu lado são suspeitos.
— Exato. Eu não quero lutar com uma fera tão linda – brincou. — Ouviu o som que faz quando se move? É um sino de prata no pescoço. Encantador! — Era óbvio que estava tentado fazê-la relaxar. Elzevir tinha essa habilidade de fazer as pessoas sentirem-se confortáveis. Sorriu agora de um modo mais sereno. — Fico feliz que tenha passado um tempo com Grisial e espero que tenha sido bem instrutivo. — Parou abruptamente e a fitou com uma nova expressão entusiasmada. — Você realmente viu Nômade? Como ele é? Ah, que feito!
— Poliphilo esteve aqui? — Olhou-o com expectativa renovada.
— Salomon esteve aqui. — Girou a maçaneta e entraram no recinto.
— Quando vi Poliphilo estava um tanto… — olhou para seu anfitrião sem completar a frase e ele concordou com a cabeça.
— Eu sei. Ele está bem agora. Salomon o auxiliou. — Fez Gio sentar-se numa poltrona vermelha tão fofa que ela acreditou que poderia afundar nela.
— Veja, espero que entenda o fato de não termos lhe contado tudo de uma única vez. — Sentou-se numa outra poltrona ao seu lado e tirou um cachimbo que seria totalmente clichê se não soltasse bolhas de sabão. — Já havia muito para você lidar com toda essa coisa de Gnóstis e acreditamos que ler o Grimoire de Poliphilo seria prova suficiente para confiar nele. Você mesma já havia notado que algo ocorria com Poliphilo, não? — continuou sem esperar uma afirmativa. — Não é fácil abranger tudo que Imaginarium é em tão pouco tempo e a verdade é que a velocidade com que você despertou suas habilidades foi muito além de nossas expectativas. Não imaginei sequer que seria capaz de ver Nômade tão depressa. Nem Nabu conseguiu isso!
— Quando Poliphilo me falou sobre Nabu, imaginei que tinha visto Nômade, mas ao ler seus textos percebi que ele só o ouviu e por um breve tempo. Não sei se compreendi bem, mas ele tentou levar Nômade até Imaginarium. Como fez isso se não o via?
— Um biblios pode envolver alguém com sua Gnósis para levá-lo a um lugar. Poliphilo fez isso com você na primeira vez. Nabu tinha grande poder, mas mesmo ele não conseguiu reter Nômade aqui. Aliás, soube que você levou um Sumidouro consigo. Isso também foi fascinante! Mesmo Poliphilo tem de colocá-los nas correntes para mantê-los aqui.
— Sim, eu consigo retê-los em minhas mãos, mas não mantê-los em um outro ambiente diferente de onde provavelmente foram deixados originalmente. Quando o soltei, ameaçou desaparecer, então tive de usar outro recurso.
— E qual foi? — Inclinou-se realmente interessado no assunto como se fosse ouvir uma grande revelação.
— Eu o retive em uma lembrança junto com o Grimoire de Poliphilo.
— Eureka! — bradou animado. — Como nunca pensei nisso? Você o guardou entre uma camada de realidade!
— Confesso que me inspirei em Nômade. Ele me levou para conversar numa camada criada entre meus sonhos e a realidade. Ele parece viver lá boa parte do tempo, imagino até para se manter longe da Quimera.
— Outros necromons vivem com ele?
— Não vi ninguém. Talvez ele só consiga ficar sozinho ali, caso contrário teria salvo os necromons da Quimera há muito, não acha? Me falou que aquilo demandava muito da sua Gnósis.
— Com certeza. Mas que poderoso é esse ser que pode criar uma camada de realidade para si! Imaginarium só existe por força própria, mas ele, criou uma realidade inteira, enquanto nosso poder se limita principalmente sobre as fortalezas e criações momentâneas.
— Talvez a necessidade o tenha feito desenvolver isso — sugeriu timidamente enquanto a teoria se desenvolvia em sua mente. Elzevir a ouviu atentamente. — Talvez todos vocês tenham esse tipo de poder, mas a necessidade de manifestá-los seja o que realmente o faz ter esse poder. Nômade tem um Gnósis poderoso e, ainda assim inerte, por isso seria o objeto de caça natural de uma Quimera. Para sobreviver por tanto tempo deve ter aprendido a criar camadas momentâneas a fim de poder continuar existindo. Talvez as emoções sejam os melhores impulsionadores de poder. Veja, eu li um Sumidouro que aparentemente estava vazio e…
— Um Sumidouro vazio!? Havia algo para ler? — Ele realmente pareceu chocado. Seus olhos brilharam como se uma supernova implodisse em cada um e, por um segundo, Gio pode ver todo o tempo daquele ser. Elzevir era quase tão antigo como Nabu e, não à toa, lhe dissera que já tivera outros nomes. Quase perdeu a linha de pensamento ao poder fazer aquela leitura da Gnósis daquele biblios incrível que estava diante de si.
— Havia — recomeçou. — Como eu suspeitei, todo livro tem uma leitura mais profunda, não apenas Grimoires, mas Sumidouros. Dessa forma eu adentrei no Sumidouro e então eu vi. Era… era lindo, como um farol num horizonte sem possibilidades. Havia tanta esperança lá dentro. Então eu entendi que o poder que moveu a criação dos Sumidouros não era apenas movido pelo medo, mas pela esperança de sobreviver, de continuar e de encontrar algo melhor.
“Talvez por isso Nômade se tornou tão poderoso, o Senhor dos Necromons e talvez tão lendário quanto Nabu. Porque ele ultrapassou seus limites. Agora penso que talvez o que tenha feito Nabu poder ouvir Nômade naquela noite tenha sido o simples fato de acreditar que poderia haver um meio de saber mais, de buscar e não apenas conformar-se com os obstáculos. Não existem livros vazios. Não existe uma única leitura. Sempre há um meio.”
Elzevir a observou por segundos que pareciam horas. Gio ficou em silêncio enquanto esperava um retorno e viu o encantamento no olhar dele porque estava vendo algo nela, assim como ela vira seu ser momentos atrás.
— Sua Gnósis está crescendo vertiginosamente. Quase posso tocá-la. Não duvido que possa criar até Grimoires como nunca foram feitos. Eu diria que não terá dificuldade de se apresentar diante de Ganesha — finalmente declarou. — Você pode rastrear do que sou feito?
— Grisial me perguntou o mesmo.
— Está claro para ele, como está para mim, que uma Gnóstis pode ler não apenas Grimoires, mas biblios em si. Não deve nos dizer do que somos feitos.
— Grisial me falou isso também. Fico pensando se posso usar esta habilidade para salvar Poliphilo, quem sabe mudar algo.
— Não é uma boa ideia ainda. Não até que o Conselho a conheça.
— Então acredita que posso fazer isso?
— Eu sei que você pode fazer isso.
— Como pode ter… — não terminou a frase. Sentiu como se, de repente, algo tivesse ficado muito claro. Suspeitou e ao suspeitar, encheu-se de surpresa e temor ao mesmo tempo. Elzevir sorriu complacente. — Eu já fiz isso!? Como? Quando?
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Nina terminou de lavar a louça do lanche da tarde. Cuidara da horta após o almoço e dera uma folga a si mesma, preparando algo leve para comer depois de toda a limpeza, regas e arrumação. Aproveitou que estava na cozinha e resolver guardar a louça do almoço que já escorrera e estava quase seca. Enquanto enxugava com um pano de prato, olhava a vista do pomar. Logo haveria muitas laranjas e limões para colher. Muitos estavam quase no ponto certo. Sorriu observando a beleza da vista simples. Foi quanto baixou os olhos para o batente externo na janela da cozinha, que iluminava toda bancada da pia de cubas duplas. Por um segundo parou de mover o pano num vaivém dentro de uma tigela e estreitou os olhos. Piscou para firmar a vista e depois, cuidadosamente, se aproximou mais da bancada para olhar o largo batente enquanto retomava devagar o movimento repetitivo de secar.
Ali, bem relaxado, sentado como um pequeno reizinho e olhando diretamente para ela através das vidraças, estava um sapo. Não qualquer sapo. Um grande sapo bem robusto e vistoso. Nina estava acostumada a ver sapos que sempre apareciam entre a horta, o pomar ou o jardim. Eram comuns e muito bem-vindos, mas aquele…usava uma pequena e graciosa cartola.
Suspirou. Soltou a tigela e colocou as mãos na cintura.
— Olha, se queria passar incógnito deveria ter tirado a cartola, sabia?
O sapo a olhou e deu um coaxado que soou como um protesto antes de mover graciosamente a patinha para tirar a cartola e olhar para seu chapéu com ar de surpresa. Nina sorriu um pouco e caminhou até a porta dos fundos abrindo-a.
— Pode entrar. Você é bem-vindo — completou sabendo que seu inusitado visitante era a promessa cumprida de Grisial.
Observou o sapo se mover rapidamente e saltar até a entrada para se introduzir na casa como um visitante tardio.
— Você come? — perguntou enquanto fechava a porta.
O que Nina não viu foi o incrível ser que se moveu através de seu pomar com suas escamas peroladas que o deixavam praticamente invisível quando inerte. Agora ele também olhava fixamente para aquela antiga casa e começou a caminhar dando a volta para, finalmente, atravessar os vitrais da grande sala de restauro de Giovanna.
Assim que o fez o som delicado e límpido de um sino de prata soou baixo.
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Os belos olhos amendoados de Su Won que pareciam observar o espaço enquanto esperava ser recebido pelo Ourives, dilataram-se levemente como se tivesse sentido algo inesperado. Ergueu um pouco o rosto ao ouvir aquilo que ninguém mais podia ouvir ali: o tilintar do sino de prata de um Haechi. Seu fiel acompanhante encontrara algo e valera a pena tê-lo desdobrado não apenas para observar a Fortaleza do Domo, mas seguir quem saísse de lá ou da Fortaleza dos Enigmas. Notara que Elzevir frequentava muito aquele local em tempos recentes. Embora todos fossem cuidadosos o suficiente para não deixar rastros com suas habilidades, esperava que um biblios ou alguém menos experiente pudesse não ser tão cuidadoso.
Enfim, estava certo: seu Haechi seguira o rastro de um pequeno biblios.
Olhou para o incrível ambiente que lembrava uma grande loja cheia de objetos estranhos e frascos com minerais brilhantes. Prateleiras e mais prateleiras ostentando centenas de caixas fechadas e devidamente organizadas como faria um catalogador minucioso. O Ourives era, antes de tudo, um restaurador que captava objetos do mundo dos Homens que há muito haviam perdido sua função para eles, mas que ainda eram vitais para o que ele fazia: tentar restaurar Grimoires.
Uma tarefa cuidadosa, cheia de senões e que exigia um Arcanus poderoso com uma habilidade fora do comum. Alguém ideal para auxiliar o Guardião em sua empreitada de descobrir quem era o estranho indivíduo que se infiltrara em Imaginarium.
Aguardou pacientemente para ser recebido. Só depois averiguaria o que seu Haechi havia descoberto.
[1] Tecido de lã grossa e bem estruturado e resistente que teve sua origem na Escócia e Irlanda e era feito, inicialmente, à mão por pastores da região.
[2] Em coreano 해태, é uma criatura legendária pertencente a mitologia coreana e também presente na mitologia chinesa, sob o nome de Xiezhi (獬豸). Descrita como uma criatura sábia que possui a capacidade de ver tudo, julgar o bem e o mal e proteger contra desastres naturais. Também possui a incrível habilidade de poder parar, voltar ou avançar no tempo.
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